Dr Lucas Soares Pires neurologia
CRMMG 94551

A epilepsia é uma condição que acompanha a humanidade há milhares de anos, mas ainda hoje é cercada de dúvidas, receios e muitas ideias equivocadas.
Apesar de ser uma das doenças neurológicas mais comuns no mundo, ainda existe muito desconhecimento sobre o que realmente acontece no cérebro durante uma crise, quais sintomas podem aparecer, como é feito o diagnóstico e de que forma o tratamento ajuda a controlar as crises. Muitas pessoas pensam que epilepsia é sinônimo de convulsões fortes e dramáticas, mas a realidade é que essa condição pode se manifestar de maneiras muito diferentes, nem sempre tão evidentes. Entender a epilepsia de forma clara e sem complicações é essencial para reduzir o preconceito, aumentar o acolhimento e ajudar quem convive com ela a ter uma vida normal.
A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 50 milhões de pessoas convivem com epilepsia no mundo. Isso significa que ela é muito mais comum do que imaginamos. Em muitos casos, é possível controlar totalmente as crises com tratamento adequado e acompanhamento com neurologista, permitindo que a pessoa estude, trabalhe, dirija e realize atividades do dia a dia. Portanto, aprender sobre epilepsia não é apenas útil para quem tem o diagnóstico, mas para todos que convivem, trabalham ou convivem com alguém que possa ter uma crise.
O que é epilepsia
A epilepsia é um distúrbio crônico do cérebro caracterizado pela repetição de crises convulsivas ou alterações temporárias do funcionamento cerebral devido a uma descarga elétrica exagerada dos neurônios. Essas descargas são semelhantes a um “curto circuito”, fazendo com que o cérebro envie comandos confusos ao corpo por alguns segundos ou minutos.
É importante entender que nem todas as crises envolvem quedas ou movimentos fortes do corpo. Algumas podem ser sutis: a pessoa pode parar de falar por alguns segundos, olhar fixamente para um ponto, fazer movimentos repetitivos com a boca ou as mãos ou parecer desligada do ambiente. Por isso, a epilepsia é muitas vezes subdiagnosticada.
A International League Against Epilepsy (ILAE), referência mundial no estudo da doença, explica que para ser considerado epilepsia é necessário que a pessoa tenha duas ou mais crises não provocadas, ou uma crise acompanhada de grande chance de repetição. Isso ajuda a diferenciar a epilepsia de crises isoladas provocadas por febre alta, queda de açúcar no sangue ou intoxicação.

Causas da epilepsia
A epilepsia tem diversas causas possíveis, e elas variam bastante conforme a idade da pessoa e o tipo de crise. Em muitos casos, especialmente em crianças e jovens, não é possível identificar exatamente o motivo — situação chamada de epilepsia idiopática. Mesmo assim, isso não impede o tratamento nem reduz a chance de controle das crises.
Entre as causas mais conhecidas estão:
- Traumatismo craniano(acidentes graves de cabeça)
- Acidentes de carro, quedas graves ou lesões na cabeça podem deixar cicatrizes no cérebro, que se tornam pontos capazes de gerar descargas elétricas anormais
- AVC (Acidente Vascular Cerebral)
- O AVC é uma das causas mais comuns de epilepsia em adultos mais velhos. Quando uma região do cérebro perde oxigênio, pode se tornar mais suscetível a gerar crises.
- Infecções cerebrais, como meningite ou encefalite
- Doenças como meningite, encefalite ou neurocisticercose (infecção por parasitas) podem causar inflamação e danos cerebrais.
- Malformações cerebrais que se apresentam desde o nascimento
- Algumas pessoas já nascem com alterações na formação do cérebro que podem desencadear epilepsia desde a infância.
- Tumores cerebrais que causem lesões no cérebro
- Certos tumores, mesmo benignos, podem irritar o tecido cerebral e provocar crises.
- Doenças genéticas ou hereditárias
- Alterações genéticas podem facilitar o surgimento de descargas elétricas anormais no cérebro.
- Uso excessivo de álcool ou drogas
- O álcool, especialmente na abstinência após uso prolongado, e algumas drogas ilícitas podem desencadear crises.
- Lesões pós cirurgia do cérebro
- Algumas cirurgias podem deixar pequenas cicatrizes cerebrais capazes de provocar descargas elétricas anormais.
Mesmo com essa variedade de causas, muitas pessoas nunca descobrem o motivo exato. Isso não impede o tratamento e, na maioria dos casos, não altera o prognóstico.

Sintomas da epilepsia
Os sintomas dependem do tipo de crise. Há quem apresente apenas episódios de desatenção, enquanto outras pessoas têm crises mais intensas. As crises geralmente duram de segundos a poucos minutos.
A epilepsia é dividida em dois grandes grupos de crises:
1. Crises focais
Ocorrem quando a atividade elétrica anormal começa em uma parte específica do cérebro. Os sintomas dependem dessa região e podem incluir:
- movimentos involuntários em uma parte do corpo
- sensação de formigamento, cheiro estranho ou gosto metálico
- dificuldade para falar ou compreender o que é dito
- sensação de medo repentino sem motivo
- olhar parado e falta de resposta por alguns segundos
- movimentos repetitivos, como mexer nas roupas ou mastigar
- sensação de desligamento do ambiente
Algumas crises focais podem evoluir para crises generalizadas.
2. Crises generalizadas
Atingem os dois hemisférios do cérebro ao mesmo tempo. Entre os tipos mais comuns:
- Crises tônico-clônicas: são as mais conhecidas, com rigidez muscular, movimentos rítmicos e perda de consciência.
- Crises de ausência: comuns em crianças, caracterizadas por interrupção breve das atividades e olhar parado, como se a pessoa estivesse “sonhando acordada”.
- Movimentos automáticos: repetição involuntária de gestos simples.
Após qualquer tipo de crise, a pessoa pode ficar confusa, sonolenta, com dor de cabeça ou sem lembrar do que aconteceu. Essa fase é chamada de período pós-ictal.

Diagnóstico da epilepsia
O diagnóstico é feito pelo neurologista e envolve:
• História clínica detalhada
É importante relatar tudo o que foi observado durante a crise, inclusive informações obtidas por quem presenciou o episódio.
• Eletroencefalograma (EEG)
Exame que registra a atividade elétrica do cérebro. Pode identificar alterações típicas da epilepsia.
• Ressonância magnética (RM)
Ajuda a identificar possíveis causas, como lesões, tumores, malformações ou cicatrizes.
• Exames laboratoriais e genéticos
Indicam causas relacionadas a alterações metabólicas ou hereditárias quando suspeitas. O diagnóstico correto é fundamental para escolher o tratamento adequado
Medico especialista em epilepsia

O médico especialista em epilepsia é o neurologista
Dr Lucas é medico especialista em neurologia que realiza tratamento de epilepsia, formado pela Faculdade de Ciências Medicas de Minas Gerais com enfoque em neurologia durante sua formação e especialização em neurologia no Hospital Santa Casa de Belo Horizonte em uma das residências mais antigas de neurologia do país.


Tratamento da epilepsia
O objetivo do tratamento é controlar as crises e permitir que a pessoa viva plenamente.
1. Medicamentos anticonvulsivantes
São o tratamento mais comum e conseguem controlar as crises em cerca de 70% dos pacientes. O neurologista escolhe o remédio considerando idade, tipo de crise e efeitos colaterais possíveis. É essencial tomar corretamente e nunca interromper sem orientação médica.
2. Cirurgia
Recomendada quando os remédios não controlam completamente as crises e o foco das descargas elétricas está bem localizado e pode ser removido com segurança.
3. Estimulação elétrica
O implante de um aparelho que estimula o nervo vago, por exemplo, pode ajudar a reduzir a frequência das crises em alguns pacientes.
4. Dieta cetogênica
Uma alimentação rica em gorduras e pobre em carboidratos, feita com acompanhamento médico e nutricional, pode ajudar especialmente em crianças com epilepsia difícil de controlar.
Epilepsia tem cura?
Em muitos pacientes, especialmente aqueles com crises bem controladas, é possível ficar anos sem crises e até suspender o uso de medicamentos sob orientação médica.
Contudo, o tratamento deve ser individualizado e acompanhado por um neurologista, para garantir segurança e eficácia.

Viver com epilepsia
Com o diagnóstico e tratamento adequados, a maioria das pessoas com epilepsia pode levar uma vida normal e ativa. É importante:
- Tomar os medicamentos corretamente
- Evitar a privação de sono e o consumo de álcool
- Manter acompanhamento médico regular
- Informar familiares e amigos sobre como agir em caso de crise
Mudanças de estilo de vida importantes para pessoas com epilepsia
Conviver com epilepsia envolve muito mais do que tomar o medicamento corretamente. O dia a dia do paciente pode influenciar diretamente na frequência das crises, na duração delas e até no bem-estar emocional. Pequenas adaptações na rotina fazem uma grande diferença no controle da doença e ajudam a prevenir situações de risco. A seguir, estão as principais mudanças de estilo de vida recomendadas para quem tem epilepsia.
1. Manter um sono regular
A falta de sono é um dos fatores que mais facilita o aparecimento de crises. Por isso, é essencial:
- Dormir de 7 a 9 horas por noite, ou conforme orientação médica
- Tentar manter horários fixos para dormir e acordar
- Evitar telas brilhantes (celular, tablet, TV) antes de deitar
- Criar um ambiente de sono confortável, silencioso e escuro
O sono de baixa qualidade, mesmo quando a pessoa dorme por muitas horas, também pode prejudicar o controle das crises. Criar uma rotina de descanso é fundamental.
2. Evitar consumo excessivo de álcool
O álcool pode facilitar o surgimento de crises em pessoas com epilepsia, principalmente quando consumido em grandes quantidades ou quando a pessoa deixa de dormir após beber. Além disso, o álcool pode interagir com os medicamentos anticonvulsivantes.
Recomenda-se:
- Evitar consumo excessivo
- Conversar com o médico sobre limites seguros
- Nunca misturar bebida alcoólica com medicamentos sem orientação
Alguns pacientes podem ser orientados a evitar totalmente o álcool.
3. Reduzir o estresse e aprender técnicas de relaxamento
O estresse não é causa direta de epilepsia, mas pode favorecer crises em algumas pessoas. Para isso, é útil:
- Praticar exercícios leves, como caminhadas
- Criar pausas durante o dia para respirar e relaxar
- Usar técnicas como meditação, yoga ou alongamento
- Organizar o dia para evitar sobrecarga
Pessoas com epilepsia muitas vezes vivem com receio de ter uma crise, o que aumenta ainda mais o estresse. Por isso, atividades que ajudam a manter o equilíbrio emocional fazem parte do cuidado.
4. Alimentação equilibrada
Embora a dieta cetogênica seja indicada apenas em casos específicos e sempre com supervisão, uma alimentação saudável no geral traz benefícios importantes. Recomenda-se:
- Consumir alimentos frescos, frutas, legumes e proteínas
- Evitar jejuns prolongados
- Reduzir alimentos ultraprocessados
- Beber água ao longo do dia
Alguns pacientes podem apresentar crises em situações de hipoglicemia (queda de açúcar no sangue). Por isso, manter horários regulares de alimentação é útil.
5. Evitar estímulos que possam disparar crises
Algumas pessoas têm gatilhos específicos, como:
- Luzes piscando ou ambientes muito iluminados (em casos de epilepsia fotossensível)
- Estresse emocional intenso
- Sons muito altos
- Excesso de calor ou exaustão física
Identificar esses gatilhos ajuda a adaptar o dia a dia de forma segura. Nem todos os pacientes têm gatilhos claros, mas quando existem, vale a pena evitá-los.
6. Praticar exercícios físicos com segurança
Exercícios são positivos para o corpo e a mente. Eles ajudam no sono, reduzem o estresse e melhoram o humor. No entanto, algumas precauções são importantes:
- Exercícios no solo são mais seguros (caminhada, corrida leve, dança, musculação)
- Atividades na água devem ser acompanhadas por outra pessoa
- Evitar esportes em locais altos sem proteção, como escalada ou atividades em telhados
- Usar equipamentos de segurança quando necessário
A maior parte das pessoas com epilepsia pode praticar exercícios sem restrições, desde que o risco de quedas seja considerado.
Pequenos cuidados reduzem riscos sem limitar a vida da pessoa.
Conclusão
A epilepsia é uma condição neurológica tratável e que, com acompanhamento especializado, permite uma vida plena e produtiva. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para o controle das crises e a melhora da qualidade de vida.